Refrigerantes zero calorias, light e diet podem na dieta para perda de peso?

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A resposta para a pergunta acima é “não”. Embora alguns (poucos, frente a popularização da nutrição) possam estar surpresos com a resposta, o motivo de tal posicionamento vai além do simples conceito de calorias. Nós ainda estamos parcialmente condicionados a nos preocupar primariamente com o teor calórico dos alimentos e bebidas, contar calorias consumidas, etc. Isso é mais evidente ainda no continente norte-americano, onde as políticas de alimentação e nutrição tem sua base no valor calórico dos produtos e baseiam intervenções (dieta e exercício) focando no consumo e no gasto calórico diário. Ou seja, quanto foi consumido em quanto foi gasto (em calorias) ao longo do dia. Porém, o conceito de “calorias” isolado é muito simplista e já tem sido demonstrado há algum tempo que não pode ser considerado como parâmetro único na elaboração de qualquer intervenção nutricional.

Em revisão da literatura, Pereira-Lancha et al. (2010) demonstram que o gasto energético total e o volume calórico consumido não são os únicos fatores que regulam a homeostase da adiposidade corporal. De acordo com os autores, o balanço de nitrogênio (derivado de aminoácidos) e dos carboidratos é facilmente regulado em função da facilidade do organismo em ajustar suas respectivas taxas de oxidação, o que não acontece com a ingestão lipídica. Em outras palavras, o organismo lida melhor com o excesso de proteínas, aminoácidos e carboidratos em termos de oxidação em comparação ao excesso de lipídeos. Além disso, a gordura dietética é armazenada de forma muito eficiente como gordura corporal, enquanto que o aumento da ingestão de carboidratos aumenta as reservas de glicogênio, que geralmente são muito menores do que a capacidade máxima de armazenamento, estimulando assim a oxidação deste nutriente. Portanto, mais importante que calorias é a composição do alimento/bebida, ou seja, de originam as calorias.

No que concerne as bebidas “diet” ou “zero” em calorias, o princípio é o mesmo. Não é pelo fato da bebida estar isenta de calorias ou possuir um valor calórico inferior que esta pode ser classificada como “permitida” para aqueles que buscam perda de peso corporal e redução da adiposidade. De modo geral, refrigerantes (calóricos, diet e zero) possuem outros ingredientes em sua composição que possuem forte relação com a etiologia da obesidade. Além de corantes, acidulantes e conservantes, os mais estudados e com fortes evidências até o presente são a frutose o xarope de milho (usualmente tratados e referidos como composto único). Estima-se que frutose e xarope de milho correspondam a mais de 40% dos adoçantes presentes em alimentos e bebidas e o adoçante praticamente exclusivo presente nos refrigerantes. Bray et al. (2004) investigaram o padrão de consumo alimentar da população norte-americana no período de 1967 a 2000 e observaram que o consumo de bebidas a base de frutose e xarope de milho aumento mais que 1000% entre 1970 e 1990 e que tal aumento possui relação temporal com a epidemia da obesidade. Além disso, estes adoçantes presentes nos refrigerantes influenciam diretamente o metabolismo de vitaminas e minerais, que são fundamentais para a homeostase energética e funcionamento adequado do ciclo de Krebs onde ocorre a utilização de ácidos graxos (gordura) como fonte de energia.

Vários fatores podem explicar tal associação. Dentre estas podemos citar: aumento da carga de carboidratos e o aumento da ingestão de frutose per se. Agudamente, a frutose pode induzir um certo grau de termogênese.  Porém, também aumenta a concentração plasmática de triglicérides, a lipogênese (acúmulo de tecido adiposo) e a pressão arterial (Bray, 2010).

Outro ponto importante é o teor de ácido fosfórico presente nos refrigerantes. Este composto é conhecido por reduzir a absorção de cálcio e, consequentemente, comprometer a densidade mineral óssea. No contexto da obesidade isso é de extrema relevância uma vez que a carga corporal de um indivíduo com sobrepeso/obesidade é elevada e, portanto, é necessário que este apresente estrutura adequada para suportar tal carga. Josse et al (2012) demonstraram a importância da saúde óssea na perda de peso corporal ao submeterem mulheres com pré-menopausa e com sobrepeso corporal a elevada ingestão de lácteos associada um programa de atividade física. Os autores observaram redução de gordura corporal associada a aumento de densidade mineral óssea. Além disso, refrigerantes possuem elevado teor de sódio que também pode aumentar a excreção de cálcio.

Portanto, refrigerantes são bebidas de baixo valor nutricional. Mais importante do que olhar somente o valor calórico é checar o rótulo dos alimentos com detalhes e procurar se informar a respeito da ação destes compostos que aparecem em letras miúdas no organismo humano a fim de verificar se podem ser incluídos no planejamento dietético visando a perda de peso corporal. Procure sempre um nutricionista para que este possa lhe orientar a respeito da composição dos alimentos e do seu planejamento alimentar.

 

Referências bibliográficas e sugestões para leitura

Bray GA, Nielsen SJ, Popkin BM. Consumption of high-fructose corn syrup in beverages may play a role in the epidemic of obesity. Am J Clin Nutr. 2004 Apr; 79(4):537-43.

Bray GA. Soft drink consumption and obesity: it is all about fructose. Curr Opin Lipidol. 2010 Feb;21(1):51-7.

Josse AR, Atkinson SA, Tarnopolsky MA, Phillips SM. Diets higher in dairy foods and dietary protein support bone health during diet- and exercise-induced weight loss in overweight and obese premenopausal women. J Clin Endocrinol Metab. 2012 Jan;97(1):251-60.

 

Pereira-Lancha LO, Coelho DF, de Campos-Ferraz PL, Lancha AH Jr. Body fat regulation: is it a result of a simple energy balance or a high fat intake? J Am Coll Nutr. 2010 Aug;29(4):343-51.

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