Taurina e exercício: novas evidências acerca da suplementação

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Atualmente, o uso de suplementos esportivos com a promessa de melhora de desempenho é crescente. Carboidratos e proteínas são os nutrientes que compõe a base de grande parte dos produtos comercializados pela indústria e são amplamente estudados no meio acadêmico. Entretanto, recentemente, os estudos têm se voltado para alguns nutrientes específicos que agem por meio de mecanismos pontuais que podem auxiliar de diversas formas no rendimento esportivo. Neste contexto estão inseridos os famosos suplementos “pré-treino”, que possuem composição variada tanto dentro da indústria como nos estudos que vêm sendo realizados.

A literatura já dispões de bons estudos em humanos investigando os possíveis efeitos ergogênicos dessa nova classe de suplementos. De modo geral, a composição dos produtos avaliados nos ensaios clínicos possui: carboidratos, taurina, aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA), cafeína, nitrito natural (beterraba), extrato ou compostos do chá verde e beta-alanina. Dentre tais compostos, a adição de taurina parece ser determinante na efetividade destes compostos. Embora haja poucos estudos disponíveis em comparação a outros suplementos que já foram amplamente investigados, as evidências disponíveis até o presente nos permite gerar discussão e conclusões acerca de sua efetividade.

A taurina pode ser definida como um aminoácido não essencial presente em diversos tecidos do organismo humano como, por exemplo, sistema nervoso central e músculo esquelético. Além disso, a taurina é um aminoácido que não é incorporado a enzimas e proteínas sendo, portanto, sua ação mediada de modo per se. Suas principais funções descritas e estudadas até o momento no que concerne ao exercício são a ação anti-inflamatória e antioxidante. Ra et al. (2013) avaliaram os efeitos da suplementação de taurina combina com BCAA sobre a dor muscular tardia induzida pelo exercício excêntrico de alta intensidade. De modo randomizado e duplo cego, os voluntários foram alocados em 4 intervenções: 2,0 g de taurina (ou placebo) com 3,2 g de BCAA (ou placebo) ingeridas 3 vezes ao dia por 2 semanas antes da sessão de exercício e 4 dias após a mesma. Os autores observaram melhora significativa nos marcadores sanguíneos de dano muscular e na dor tardia quando ocorria adição de taurina em comparação as demais intervenções.

Este mesmo padrão de resultados foi observado no estudo mais recente de da Silva et al. (2014). Também de modo randomizado e duplo-cego, os autores suplementaram 3,0 g de taurina ou placebo 14 dias antes do protocolo excêntrico de dano muscular e por mais 7 dias após o mesmo. Além da redução da dor (também demonstrada no estudo anterior), houve menor perda de força muscular isométrica e concêntrica nos voluntários suplementados com taurina em relação ao placebo. Digno de nota, os autores encontraram que, nesta situação de dano muscular fisiológico, o principal mecanismo pelo qual a taurina age está na diminuição da peroxidação lipídica (estresse oxidativo). 

Já em outro contexto, Balshaw et al. (2013) avaliou, em voluntários treinados, de modo randomizado, duplo-cego e cross-over os efeitos da suplementação de 1 g de taurina sobre o desempenho esportiva em corrida de 3 km. Os voluntários ingeriram uma única dose e, após 2 horas, realizaram um teste contra relógio em esteira com distância fixa de 3 km. A ingestão de taurina melhorou significativamente o desempenho no teste contra relógio em cerca de 1,7%. Digno de nota, os autores utilizaram uma dose de suplementação 2 e 3 vezes inferior àquelas proposta nos estudos de Ra et al. (2013) e de da Silva et al. (2014), respectivamente, sugerindo que os benefícios acerca de desempenho podem atingidos com doses variadas. 

De fato, a literatura tem demonstrado bons resultados em humanos acerca de eficácia e segurança da suplementação de taurina. Embora os estudos sejam recentes e não haja um volume grande de evidências, os dados apresentados nos trabalhos são consistentes e replicáveis. Ou seja, o mesmo padrão de resultados tem sido obtido em estudos de grupos de pesquisa distintos. Ainda há informações que carecem de elucidação, principalmente a dose ideal de consumo para que haja efeitos ergogênicos. A literatura não dispõe de um estudo dose-resposta e, portanto, não há como estabelecer recomendações práticas uma vez que efeitos positivos foram observados após o consumo de 1 dose de 1 g e após 2-3 semanas consumindo 3 g/dia. 

Outro ponto que carece de esclarecimento é o possível papel da taurina sobre o crescimento muscular. Miyazaki et al. (2013) discutem os papel da taurina no desenvolvimento muscular em termos de morfologia e capacidade contrátil. Estudos em roedores demonstraram menor potencial de crescimento nestes aspectos quando há deficiência deste aminoácido. Entretanto, estes são dados experimentais e não podem ser extrapolados para seres humanos uma vez que são necessários estudos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo que testem não somente a eficácia, mas a segurança da suplementação.

 

Referências e sugestões de leitura

– Balshaw TG, Bampouras TM, Barry TJ, Sparks AS. The effect of acute taurine ingestion on 3-km running performance in trained middle-distance runners. Amino Acids. 2013 Feb;44(2):555-61.

– da Silva LA, Tromm CB, Bom KF, Mariano I, Pozzi B, da Rosa GL, Tuon T, da Luz G, Vuolo F, Petronilho F, Cassiano W, De Souza CT, Pinho RA. Effects of taurine supplementation following eccentric exercise in young adults. Appl Physiol Nutr Metab. 2014 Jan;39(1):101-4.

– Miyazaki T, Honda A, Ikegami T, Matsuzaki Y. The role of taurine on skeletal muscle cell differentiation. Adv Exp Med Biol. 2013;776:321-8.

– Ra SG, Miyazaki T, Ishikura K, Nagayama H, Suzuki T, Maeda S, Ito M, Matsuzaki Y, Ohmori H. Additional effects of taurine on the benefits of BCAA intake for the delayed-onset muscle soreness and muscle damage induced by high-intensity eccentric exercise. Adv Exp Med Biol. 2013;776:179-87.

 

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